Skip to content

Deus garoto propaganda

11 de agosto de 2002
deus garoto propaganda

Além de divulgar mensagens cristãs via Internet, algumas igrejas neopentecostais usam seus sites para vender desde piercings de diamante até pacotes de viagem

Paloma Oliveto
Da Meridional

Conta o Evangelho de São João que certa vez, chegando à entrada do templo, Jesus pegou um chicote e começou a ”exemplar” ambulantes que aproveitavam a presença dos fiéis para fazer seu pé de meia. Se voltasse à Terra, Ele teria que arrumar um arsenal de chicotes. Porque o nome de Deus tem sido usado como nunca para vender, e não estamos falando de livros e CDs religiosos. Algumas neopentecostais, apelidadas de ”igrejas eletrônicas”, aproveitam seus sites para anunciar produtos os mais diversos possíveis: cestas de café da manhã, seguros de automóvel, piercings de diamante e até artigos ligados à religião.

A campeã de vendas é a Universal do Reino de Deus (www.igrejauniversal.org.br). A igreja do bispo Edir Macedo, que começou apostando nas classes C e D, agora investe num público que pode pagar R$ 1.729 por um carrinho Audi para crianças. Ou R$ 200,75 por um piercing de umbigo. Tudo, claro, de forma sutil. Na entrada do site, o símbolo da igreja – um Espírito Santo – e os links para a história e a missão da Universal, os trabalhos sociais e para a Arca Universal. É nesse endereço que o fiel – ou qualquer outro internauta – terá acesso aos produtos de 13 lojas. Apenas uma delas vende artigos religiosos; todas as outras são de mercadorias tão pagãs quanto sapatos de couro, pingentes de ouro 18K e CDs de rock’n’roll profano.

Os pastores e bispos da igreja não comentam o assunto. E ficam sem explicar qual a receita do portal, para onde vai o dinheiro investido em publicidade e por que um site religioso estimula o consumo a ponto de desenvolver um canal só de compras.

Cotação do dólar

Embora não chegue ao ponto de hospedar um shopping virtual, a Renascer em Cristo (www.renascertag.cjb.net), comandada pelo casal de bispos Estevam e Sonia Hernandes, também parece investir mais em publicidade que no conteúdo religioso. Logo na entrada do site, a cotação do dólar e os índices da Bovespa. Na homepage, pipocam banners e mensagens: ”Anuncie no Portal Renascer”. Para fazer as comprinhas nas lojas dos anunciantes, que tal um cartão de crédito Gospel Bradesco Visa? Até isso tem. ”Não visamos lucro. Tudo que ganhamos com o cartão é investido nas obras sociais, como a casa de dependentes químicos de São Paulo”, explica o pastor Artur Rogério, da Renascer em Cristo de Brasília. O dinheiro dos banners – o anúncio varia de R$ 10 a R$ 100 -, segundo o pastor, também não vai para a igreja. ”É tudo para a manutenção do site. E é pouco. Na verdade, os banners são mesmo para ajudar a divulgar as empresas de pessoas que freqüentam a igreja, pois os custos são baixos”, garante o pastor.

Mas essa filantropia toda não aparece no portal. Pelo contrário, os Hernani são muito claros no link ”Como Anunciar”: ”O não pagamento na data do vencimento implicará cancelamento dos benefícios concedidos, suspensão de crédito e protestos após quatro dias corridos da data de vencimento da fatura de Prestação de Serviços”. E mais: ”O anunciante e o vendedor responsabilizam-se pelos dados dos banners e textos dos anúncios, fornecidos pelo anunciante, e pelos prejuízos decorrentes de sua divulgação, inclusive em relação a terceiros, não cabendo a responsabilidade solidária dos veículos de comunicação do Portal Renascer”.

Livro erótico

Para um site religioso, o Renascer é bastante democrático na escolha do tipo de anúncio que pode ser divulgado. Vale tudo, desde que atenda às recomendações do Conar. ”Só podem anunciar pessoas que freqüentem a igreja”, garante o pastor Artur Rogério, que depois se corrige: ”Ou então que sejam indicadas. Mas 99% dos anunciantes são nossos fiéis”. Outra coisa que não fica clara no portal, que, inclusive, tem um texto bastante convincente para atrair propaganda: ”Hoje a comunidade evangélica é mais de 50 milhões. Anunciando no Portal Renascer você está colocando sua empresa e seus produtos em contato com um público segmentado, formador de opinião, com bom poder aquisitivo e com alta aceitação da modernização”.
E a igreja vai mais além. Dá dicas de publicidade. ”Use a palavra GRÁTIS – são as seis letras mais poderosas do marketing direto. Qualquer promoção ou incentivo à compra que use palavras como ‘grátis’, ‘gratuito’ induz os usuários a clicarem no banner.”

A cena é impagável. Você entra no site da Igreja Quadrangular (www.quadrangular.com.br), freqüentada pelo presidenciável Anthony Garotinho, e dá de cara com a propaganda do livro erótico O Prazer sem Limites. Ricamente ilustrado com fotografias quentíssimas. Ao lado do banner, mensagens evangélicas. ”Nossa, eu não sabia disso! Temos que tomar providências”, surpreende-se o pastor Waldir Fascioni, presidente estadual da Igreja em Pernambuco. Segundo o pastor, o dinheiro arrecadado com publicidade é usado para pagar o webdesigner. ”Ele é responsável pelos anúncios, mas estava avisado que pornografia, bebida alcoólica e cigarro não podem entrar no site”, diz.

Nas outras igrejas

A presença de publicidade em sites oficiais de instituições religiosas não é comum. Confira o conteúdo de outros portais, em que anúncios não entram:

Assembléia de Deus (www.ad.org.br) O site traz a doutrina da igreja, mensagens de fé e um link sobre o coral da Assembléia.

Igreja Presbiteriana (www.ipb.org.br) Agenda de atividades da igreja, notícias, missões dos fiéis.

Comunhão Espírita (www.comunhaoespirita.org.br) Atividades da Comunhão Espírita, notícias, estudos da doutrina.

CatólicoNet
(www.catolico.org.br) Notícias do Vaticano, mensagens de fé, links para a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e os meios de comunicação católicos.

E MAIS

Sob suspeita

Em maio passado, a revista Época publicou uma reportagem denunciando o ”lado obscuro” da Igreja Renascer em Cristo, do casal de bispos Estevam e Sonia Hernandes. Vários fiéis foram coagidos a serem fiadores dos caríssimos imóveis alugados como templos e depois tiveram que arcar com o calote dos bispos. No total, 21 pessoas foram vítimas – no Distrito Federal, há quatro processos contra a Renascer. Segundo a reportagem, em três anos a igreja cresceu 100% e hoje o império conta com 12 empresas, incluindo um resort em Las Palmas, na Flórida.